Instabilidade global pressiona combustíveis, fertilizantes e logística — e revela a falta de estratégia do País para proteger sua segurança alimentar.
Por Éder Bublitz
Os conflitos no Oriente Médio voltaram a ocupar o noticiário internacional e a preocupar líderes mundiais. Para muitos brasileiros, pode parecer um problema distante, restrito a uma região do planeta marcada por tensões históricas.
No entanto, para quem trabalha com produção de alimentos, logística e abastecimento, a realidade é outra: guerras do outro lado do mundo podem impactar diretamente o preço da comida na mesa das famílias brasileiras.
Vivemos em um sistema global profundamente interligado.
O Brasil é hoje uma das maiores potências agroalimentares do planeta e depende de cadeias internacionais de energia, insumos e comércio.
Quando surgem crises geopolíticas em regiões estratégicas, como o Oriente Médio, as consequências rapidamente atravessam oceanos e chegam ao campo, às centrais de abastecimento e ao bolso do consumidor.
O primeiro efeito costuma aparecer no preço do petróleo. O Oriente Médio concentra algumas das principais reservas energéticas do mundo e controla rotas estratégicas do comércio internacional.
Qualquer escalada militar eleva o preço do combustível. Para um país continental como o Brasil, onde o transporte rodoviário ainda domina a logística de alimentos, isso significa aumento imediato no custo de produção e distribuição.
Outro ponto sensível está nos fertilizantes. O Brasil ainda depende fortemente da importação desses insumos essenciais para a produção agrícola. Conflitos internacionais podem alterar rotas comerciais, elevar preços e provocar escassez no mercado global.
Quem sente primeiro esse impacto são os pequenos e médios produtores, que possuem menor capacidade financeira para absorver oscilações de mercado.
O pequeno agricultor brasileiro já enfrenta desafios históricos: margens apertadas, crédito limitado e grande dependência de insumos externos.
Quando crises internacionais elevam os custos de produção, muitos produtores são obrigados a reduzir investimentos ou repassar custos. O resultado aparece inevitavelmente no preço dos alimentos.
Além disso, guerras e tensões geopolíticas provocam movimentos defensivos no mercado global de alimentos. Países ampliam estoques estratégicos, restringem exportações e disputam insumos, gerando volatilidade nos preços.
Para o Brasil, que é um dos maiores fornecedores de alimentos do mundo, isso cria um cenário paradoxal: ao mesmo tempo em que surgem oportunidades de exportação, cresce o risco de inflação alimentar dentro do próprio país.
E é justamente nesse ponto que precisamos fazer uma reflexão sobre o papel das nossas instituições. Enquanto o mundo discute segurança energética, segurança alimentar e reorganização das cadeias produtivas globais, muitas vezes vemos um Congresso Nacional ocupado com pautas de menor relevância ou debates que pouco contribuem para preparar o país para desafios estratégicos.
Por Éder Bublitz, zootecnista e ex-diretor-presidente da Ceasa Paraná
O Brasil alcançou em 2025 um marco histórico na produção de leite, com crescimento estimado em 7,2% em relação ao ano anterior. À primeira vista, isso deveria ser motivo de comemoração. Produzir mais é sinal de eficiência, investimento e profissionalização no campo.
Mas, para milhares de produtores paranaenses e brasileiros, esse avanço veio acompanhado de uma dura realidade: mais leite no mercado significou menos renda no bolso.
Os números mostram isso com clareza. Em dezembro de 2025, o produtor recebeu em média R$ 1,99 por litro — uma queda de 22,6% em apenas 12 meses, segundo dados do Cileite/Embrapa. No mesmo período, o consumidor viu os preços caírem apenas 3,62% na cesta de lácteos. Ou seja: a conta do excesso de oferta ficou, mais uma vez, concentrada em quem está na ponta mais frágil da cadeia — o produtor.
No Paraná, que é um dos grandes polos leiteiros do país, esse cenário tem rosto, nome e endereço. São pequenas e médias propriedades familiares que investiram em genética, manejo, sanidade e tecnologia, mas hoje enfrentam margens cada vez mais apertadas.
Muitas seguem em pé graças à venda de bezerras, ao descarte de vacas e à renda complementar da pecuária de corte — o que, na prática, é um sinal de alerta: estamos usando o patrimônio para pagar o custeio do dia a dia.
O problema não é só interno. Mesmo com uma leve queda no volume importado, o Brasil ainda fechou 2025 com um déficit equivalente a cerca de 2 bilhões de litros de leite, puxado principalmente pelo leite em pó. Em um cenário de real valorizado e oferta global elevada — com Argentina e Uruguai produzindo mais —, o produto importado continua pressionando o mercado doméstico e dificultando qualquer reação mais firme nos preços.
Para 2026, o ambiente macroeconômico também exige cautela. O crescimento do PIB deve ficar em torno de 1,8%, os juros ainda permanecem em patamar elevado, e o consumo interno segue andando de lado. Isso significa que não podemos esperar que o mercado, sozinho, resolva essa equação entre produção crescente e demanda limitada.
Há, sim, sinais positivos. A entressafra tende a dar algum suporte aos preços, e o processo de tecnificação do campo é irreversível. O produtor brasileiro está mais profissional, mais eficiente e mais atento à gestão. Mesmo com a queda de preços em 2025, o custo de produção subiu menos que a inflação, o que ajudou a amortecer parte do impacto. Mas isso não basta para garantir sustentabilidade de longo prazo.
O que está em jogo é uma questão estrutural: o Brasil já produz mais leite do que seu mercado interno consegue absorver sem derrubar preços. E, ao mesmo tempo, ainda não é competitivo o suficiente para exportar excedentes de forma consistente e previsível. Esse descompasso cria ciclos de euforia e crise, que desorganizam investimentos, desestimulam produtores e fragilizam a cadeia.
É aqui que o papel do Estado e da política pública se torna decisivo.
Como gestor público e como alguém que vive o dia a dia do agro, vejo alguns caminhos claros. O primeiro é rever a política de importações em momentos de excesso de oferta interna, criando mecanismos de defesa comercial mais ágeis e técnicos, que não penalizem o consumidor, mas também não abandonem o produtor à própria sorte.
O segundo é fortalecer uma política nacional de estímulo às exportações de lácteos, com foco em acordos sanitários, promoção comercial, crédito para industrialização e apoio à adequação aos padrões internacionais. O acordo Mercosul–União Europeia, embora ainda em fase de análise jurídica, mostra que o mundo exige qualidade, rastreabilidade e escala. Se fizermos o dever de casa, não será apenas a Europa: outros mercados podem se abrir ao leite brasileiro.
O terceiro ponto é ampliar instrumentos de gestão de risco e renda, como políticas de preço mínimo mais modernas, seguro de margem, crédito anticíclico e apoio à estocagem estratégica em momentos de excesso de oferta. O produtor não pode ser o único amortecedor das oscilações de mercado.
Por fim, é fundamental investir em agregação de valor, incentivando cooperativas, agroindústrias regionais e produtos diferenciados. Vender só volume, em um mercado saturado, é receita certa para crises recorrentes. Vender qualidade, marca e valor é o caminho para estabilidade.
O produtor de leite brasileiro — e especialmente o paranaense — não pede privilégio. Pede previsibilidade, regras justas e um ambiente que reconheça seu esforço em produzir mais e melhor. Produzir alimento é uma missão estratégica para qualquer país. Proteger quem produz não é gasto: é investimento em segurança alimentar, desenvolvimento regional e soberania econômica.
Se quisermos um Brasil forte no agro também nos lácteos, precisamos transformar o atual excesso de leite em oportunidade — e não em sinônimo de prejuízo para quem acorda todos os dias antes do sol para garantir comida na mesa dos brasileiros.